Já conheces o AMALIA, o modelo de inteligência artificial português?

A inteligência artificial já faz parte do nosso dia a dia. Ferramentas como o ChatGPT e o Gemini tornaram-se conhecidas por milhões de pessoas e mostram-nos, todos os dias, o que é possível fazer com modelos de linguagem. Enquanto estas tecnologias são desenvolvidas por grandes empresas internacionais, Portugal está também a construir o seu próprio caminho nesta área, através do desenvolvimento de um LLM nacional com foco no português europeu.

O projeto chama-se AMALIA (Agente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial) e representa uma aposta na capacidade científica e tecnológica do país para desenvolver inteligência artificial. Mas, afinal, o que é este LLM português, porque é importante e como podemos utilizá-lo?

O que é o AMALIA?

O AMALIA é “o primeiro grande modelo de linguagem português ao serviço da inovação, do conhecimento e da transformação digital”. Trata-se de um LLM, ou Large Language Model – modelo de inteligência artificial treinado para processar, compreender e gerar linguagem natural -, desenvolvido em Portugal com foco no português europeu. Esta tecnologia vai servir de base a diferentes aplicações, desde assistentes digitais e sistemas de pesquisa a ferramentas de apoio à educação, à ciência ou aos serviços públicos.

O projeto resulta da colaboração entre várias instituições portuguesas, incluindo a NOVA FCT, o Instituto Superior Técnico e as universidades do Porto, Coimbra, Minho, Beira Interior e Évora, com a participação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, através do Arquivo.PT. A equipa reúne cerca de 60 investigadores e especialistas de diferentes áreas, num esforço conjunto para reforçar a capacidade nacional de investigação e inovação em inteligência artificial.

O nome AMALIA é também uma referência a Amália Rodrigues, uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa. A escolha do nome traduz, de certa forma, uma das ambições do projeto: reforçar a presença da língua portuguesa, e em particular do português europeu, no desenvolvimento da inteligência artificial.

Se já existem ferramentas como o ChatGPT e o Gemini, por que Portugal precisa de desenvolver o AMALIA?

Desde logo, o AMALIA e o ChatGPT não são exatamente a mesma coisa. O ChatGPT é um serviço desenvolvido pela OpenAI para interagir diretamente com os utilizadores, enquanto o AMALIA é um LLM em regime de código aberto que pode ser utilizado para criar diferentes aplicações e soluções. Desenvolvido no contexto científico e tecnológico português e europeu, o AMALIA pode ser estudado, adaptado e utilizado por investigadores, empresas, universidades e outras entidades.

A diferença está também no foco. Os modelos comerciais procuram responder a necessidades generalistas de utilizadores de todo o mundo, enquanto o AMALIA foi desenvolvido com especial atenção ao português europeu e ao contexto cultural e institucional de Portugal.

Esta capacidade ganha importância à medida que a inteligência artificial assume um papel crescente na educação, na ciência, na cultura, na economia e nos serviços públicos. O desenvolvimento de tecnologia própria contribui para reduzir dependências estratégicas e reforçar a soberania digital, permitindo que Portugal participe mais ativamente na construção das ferramentas que irão moldar o futuro digital.

O que já consegue fazer?

Na sua componente de linguagem, o AMALIA pode responder a perguntas, manter conversas, explicar conceitos, resumir textos e gerar conteúdos, incluindo código. No entanto, o potencial do AMALIA torna-se particularmente relevante quando aplicado a necessidades concretas.

Para a educação: a Universidade do Minho está a trabalhar na adaptação do modelo para apoiar alunos e professores. Entre as possibilidades encontram-se ambientes de aprendizagem enriquecidos por IA, apoio ao planeamento de aulas e à redação de sumários, estudo acompanhado e geração de guias de estudo ou testes de treino.

Para a cultura: o trabalho desenvolvido pela NOVA FCT, pelo Arquivo.pt e por outras entidades do setor, procura facilitar o acesso, em português, à informação sobre o património nacional. As aplicações em desenvolvimento incluem a identificação de elementos visuais, a contextualização histórica e artística de obras, a identificação de passagens literárias e a geração de descrições a partir de imagens e informação textual.

Para a ciência: a Universidade de Coimbra está a explorar o potencial do modelo na pesquisa e análise de literatura científica, teses académicas, artigos em português e documentos históricos. O AMALIA poderá apoiar a sumarização de informação, responder a questões de diferentes áreas científicas e explicar o raciocínio utilizado para chegar às respostas.

Para os media: a Universidade do Porto tem trabalhado na aplicação e no treino do modelo para tornar o acesso à informação jornalística e documental mais estruturado e contextualizado em português europeu. Entre as possibilidades estão a sumarização de fontes, a identificação de narrativas dominantes, a deteção de técnicas de persuasão, a geração de textos informativos e a criação de legendas para imagens.

A disponibilização do modelo permite que estas aplicações não fiquem limitadas às entidades envolvidas no projeto. Investigadores, empresas, universidades e outras organizações podem utilizar o AMALIA como base para desenvolver novas soluções e adaptá-lo a diferentes necessidades.

Já podemos experimentar o AMALIA?

Sim. Desde o início de julho de 2026 que o AMALIA está disponível para uso público, dando início a nova fase no desenvolvimento do projeto. A utilização pela comunidade permite testar o modelo em situações reais, avaliar o seu desempenho e contribuir para a sua evolução.

Recorde-se que para o projeto não está prevista a criação de uma interface ao estilo do ChatGPT, com o modelo a ser usado apenas em serviços e aplicações da Administração Pública ou por empresas e cidadãos como um componente de uma aplicação.

A lógica do projeto passa por disponibilizar uma tecnologia aberta que possa servir de base a diferentes aplicações e serviços, pelo que o cidadão poderá encontrar o AMALIA integrado em ferramentas desenvolvidas por entidades públicas, empresas, universidades ou outras organizações.

Um dos exemplos mais próximos do quotidiano será a Assistente Virtual do gov.pt. Lançada no final de 2024, a assistente utiliza inteligência artificial para responder a dúvidas sobre milhares de serviços públicos e, a partir do segundo semestre de 2026, passará a utilizar o AMALIA para interagir em português com os utilizadores.

O AMALIA representa um passo importante na capacidade de Portugal para desenvolver e utilizar tecnologia de inteligência artificial com foco nas suas próprias necessidades linguísticas, culturais e institucionais. Num momento em que a inteligência artificial está a transformar rapidamente a forma como trabalhamos, aprendemos e comunicamos, ter capacidade para desenvolver esta tecnologia significa mais do que criar um novo LLM: significa reforçar competências nacionais, estimular a inovação e garantir que Portugal participa ativamente na construção do futuro da inteligência artificial.